Capítulo 1: Assim caminha a humanidade

Antoine Xang ergueu-se furioso e gritou:

- Meia hora! É demais! Para quê fazem essas máquinas ridículas? Eu mesmo posso ir lá e pegar meu café!

Mal terminou de falar e viu o robozinho rosa, uma "robonete", vestindo mini-saia rendada, à maneira de uma garçonete do século passado, aproximar-se de sua mesa.

- Desculpe pela demora, Sr.Xang.

Ele resmungou qualquer coisa, pegou o café e voltou a seu lugar. Xang não era um saudosista, mas achava que algumas tecnologias só traziam dor-de-cabeça. Qual a vantagem de ter um robô para trazer o café? Antigamente, o cafezinho era um ponto-de-encontro, onde se jogava conversa fora. Falavam-se sacanagens, comentários de futebol, fofocas maldosas. Mas era um momento de interação e, diabos, precisamos disso!

Outra coisa que Xang não engolia era a legalização das net-junks, as famosas drogas neurológicas da web. Seu faro policial dizia que isso não ia dar certo. Chamavam-no saudosista por pensar assim. Saudosista, ele sabia, era eufemismo para reacionário, atributo que, definitivamente, não lhe fazia justiça. A questão das net-junks, por exemplo. Não se tratava de tolher a liberdade. O perigo estava no hardware necessário para usá-las: um aparelho, semelhante a um fone de ouvido, que podia captar e enviar sinais neurológicos. Antes da liberação das net-junks, o comércio de neurofones era rigidamente regulado. Para adquirir um, exigia-se autorização legal, que era liberada somente para fins médicos ou científicos.

Os sistemas robóticos da ONU monitoravam o uso dos neurofones em todo mundo, através de poderosos softwares de segurança, que eram programados para detectar mensagens suspeitas. Mas os hackers inventavam sempre alguma forma de burlar a lei. A liberação dos neurofones dificultava a vigilância, porque o sistema ficaria sobrecarregado. Os robôs podiam identificar rapidamente a existência de um sinal suspeito, mas não podiam emitir alerta policial antes de uma confirmação. Era um dispositivo constitucional polêmico, mas importante para a liberdade de expressão na web.

Xang achava que, com a nova lei, milhões de pessoas ficariam vulneráveis às drogas mais sinistras, como as de masoquismo, sadismo, pedofilia. Elas permaneciam proibidas, mas seria mais difícil controlar sua expansão clandestina. As drogas legalizadas foram as de sexo virtual, as excitantes, as psicodélicas, as de viagem no tempo e no espaço, entre outras. Muitas não podiam nem mesmo ser consideradas "drogas", no sentido negativo, pois geravam, inegavelmente, aquisição de conhecimentos e ajudavam os programas de educação. Curavam até problemas de auto-estima, ao permitir experiências sensoriais e psíquicas positivas, economizando anos de terapia.

As novas leis foram aprovadas sob o júbilo da imprensa mundial e nenhuma autoridade ou blog mais influente ousou fazer as críticas necessárias. Aconteceu o que eu temia, pensava Xang, que também fora blogueiro na juventude. No começo, a blogosfera foi festejada como a salvação da democracia, porque criava uma ponte entre governo e sociedade, sem a intermediação da mídia convencional. Essa influência cresceu rapidamente e a blogosfera podia derrubar e eleger governos, tornando-se a instância mais poderosa da sociedade. O grande capital, quando constatou esse fato, começou a irrigar a blogosfera com recursos jamais imaginados. Criaram-se sociedades blogueiras extremamente poderosas, que movimentavam milhões de dólares.

Hoje, ao menos, pensava Xang, não existe fome, analfabetismo, aids. Há pobreza, sofrimento, doenças novas, mas, de forma geral, a humanidade está melhor do que há 40 anos. Xang lembrava-se como a vida era difícil. A corrupção, por exemplo, um problema endêmico por séculos, fora por fim praticamente extinta pelo monitoramento robótico das contas públicas e de toda atividade jurídica ou econômica.

Xang recriminava-se constantemente por ter abandonado a blogosfera no momento em que esta começava a dar dinheiro. Depois de uma refrega blogótica da qual saiu bastante desmoralizado, decidiu prestar concurso para o departamento de crimes eletrônicos da ONU. Agora trabalhava na avenida Chile, centro do Rio de Janeiro, numa sala com bela vista para a baía de guanabara, ganhando cinco mil dólares por mês. Dava para levar uma vida confortável, mas estava muito longe da riqueza.

- Arg. O café está horrível! - disse Xang, para ser ouvido por Anne, sentada à mesa mais próxima. Anne Werther pertencia a uma outra seção, a de crimes sexuais, que, na maioria das vezes, eram realizados através da internet, em salas virtuais de bate papo e sites de relacionamento, e, portanto, classificavam-se também como eletrônicos.

- Pára de reclamar, Xang - reagiu Anne, enquanto enrolava um cigarro sem nicotina - a gente tem trabalho a fazer!

Xang olhou com enfado para Anne, que tinha menos de trinta anos e, como quase todos da sua idade, desinteressava-se por história. E não entendia nada de café.

- Eu não reclamo, Anne, eu protesto. Não quero beber café ruim. Não posso beber café ruim. Faz mal pra saúde e pra cabeça, e eu preciso dos dois pra trabalhar bem e justificar a despesa do contribuinte. Foi para isso que trocaram a servente por esse maldito robô?

Anne lançou um olhar irônico que dizia tudo: a velha acusação de saudosista. Xang agitou os braços, resignado:

- Ah, deixa pra lá. Fala aí: qual é o caso?

Anne deu uma risadinha satisfeita. Xang não conseguia evitar um calafrio de tesão: imaginava ela rindo desse jeito na cama, vestindo um baby doll sexy. Divagando desse jeito, perdeu o início do relato.

- ... garota de quinze anos, morta, sentada em frente ao computador. Parecia mais um daqueles casos de overdose. Mas os peritos fizeram uma devassa na máquina e não detectaram nenhum traço de web droga.

Ela parou pra fumar, como que refletindo sobre o que acabara de ler. Eram comuns os casos de morte por web-droga, geralmente paradas cardíacas provocadas por sexo virtual ou web-esportes radicais. Anne parecia uma personagem de filme noir do século vinte, pensava Xang, amante de cinema antigo. Xang aproveitou a pausa e pediu que ela reiniciasse a leitura. Sorrindo maliciosamente, como se tivesse adivinhado os motivos lúbricos que haviam distraído o parceiro, ela atendeu o pedido:

- Na manhã do dia 2 de maio de 2085, uma senhora, após ouvir gritos estranhos do lado de fora, saiu de casa, andou pelo corredor do prédio e verificou que os gritos vinham de um apartamento vizinho. Assustada, voltou à sua casa e chamou a polícia. Um agente chegou dez minutos depois, tocou a campainha do apartamento apontado pela senhora e, diante da falta de resposta, usou um destravador eletrônico para abrir a porta.

Anne tocou a mesa para correr o texto. Prosseguiu:

- O agente entrou no apartamento, avançou pela sala, abriu a porta do quarto e encontrou uma garota de quinze anos... morta, sentada em frente ao computador. Parecia mais um daqueles casos de overdose...

A bela policial fez uma careta para a imagem exibida. Xang deu a volta e olhou para a mesa de Anne. A vítima estava sentada numa poltrona ergométrica de couro sintético, a cabeça caída pro lado. Xang tinha se acostumado com esse tipo de foto, mas Anne, recém-ingressa no departamento, ainda se emocionava.

- Tudo bem, Anne. - Xang deu tapinhas carinhosos nas costas da parceira. A foto, no entanto, despertara uma sensação curiosa em Xang, como se ele já a tivesse visto, ou previsto.

Anne continuou a leitura:

- O agente chamou os peritos, que chegaram em alguns minutos e vistoriaram o computador. Não acharam nada relativo à morte. Aparentemente, a moça estava lendo blogs de celebridades. Os peritos analisaram o sangue e checaram sua ficha médica. Não havia registro de doença crônica. O diagnóstico preliminar foi parada cardíaca, embora ela não acusasse nenhum problema anterior.

Ela inquiriu Xang com o olhar, que retrucou:

- Acontece.

Com olhos grandes e castanhos, nos quais faiscava sempre um facho de loucura, e um corpinho esculpido em clínicas estéticas e academias, Anne tornara-se, há tempos, o fetiche sexual de Xang. Ás vezes, ele pensava que Anne era bonita demais para uma policial e desconfiava que trabalhasse secretamente para a corregedoria ou espionasse para um grupo financeiro.

Durante segundos, Xang e Anne permaneceram em silêncio, olhos nos olhos. Seus pensamentos, porém, voavam longe um do outro. O pensamento de Xang viajava no tempo, para 2068, ano do surgimento das net-junks.

*

Como fosse uma tecnologia muito nova, faltava regulamentação específica. Era uma anarquia maravilhosa. A humanidade sentiu-se livre dos sofrimentos. Depressão, dor, trauma, tédio, frustração: as net-junks curavam tudo através das experiências simuladas. Queria voar de asa-delta e nunca teve coragem? Com as net-junks você podia fazê-lo mentalmente, sem risco algum e experimentando as mesmas emoções. Queria vivenciar a II Guerra Mundial? Experimentar uma paixão? Fazer sexo com as modelos mais famosas? As net-junks permitiam tudo, sem a destruição física e mental causada pelas drogas tradicionais. Podiam ser usadas coletivamente: um grupo de amigos podia viajar juntos no tempo e no espaço, curtir as aventuras mais loucas, como explorar os grandes rios amazônicos, participar da guerra de Tróia ou conhecer Cristo.

As net-junks, ou neuro-softwares, foram desenvolvidas inicialmente para o tratamento de doenças mentais. Os pacientes podiam experimentar sensações que ajudavam a recompor o tecido psíquico e restruturar o sistema emocional. Em pouco tempo, as net-junks começaram a ser usadas indiscriminadamente, para tratamento de depressão simples e stress, até que, com a sua popularização e produção em larga escala, os preços tornaram-se acessíveis e o seu consumo explodiu. Criaram-se universidades voltadas exclusivamente para o desenvolvimento de neuro-softwares de viagem no tempo, viagem no espaço, viagem pelo interior do corpo humano, etc. A indústria de sexo virtual, que sempre fora muito grande, ampliou-se vertiginosamente: todo mundo queria transar com as (os) beldades da época, as quais vendiam sua imagem por quantias inimagináveis.

As organizações religiosas, todavia, reagiram furiosamente, lançando condenações terríveis sobre quem as usasse. Era compreensível. O consolo espiritual oferecido pelas igrejas não se comparava, em eficiência e volúpia, àquele proporcionado pelas net-junks. A posição das igrejas, embora não tenha contido a explosão das net-junks, ganhou força junto às classes políticas e à blogosfera conservadora. Houve radicalização, com extremistas religiosos explodindo bombas na porta das empresas do setor e em repartições governamentais. Eles protestavam contra a ausência de um lei que reprimisse as net-junks.

Muitos políticos, embora condenassem enfaticamente esses atos terroristas, concordavam que era preciso analisar a possibilidade de restringir, ou mesmo proibir, o uso das net-junks. O tema ressuscitou velhas querelas ideológicas. Apareceram pesquisadores respeitados afirmando que alguns programas contribuíam para a catalização de doenças mentais. Outros lembravam os casos em que as drogas virtuais haviam curado a esquizofrenia.

Foi uma grande irresponsabilidade, por parte de todos, que os problemas não fossem previstos e que não fosse criado, desde o início, um alto comitê que estudasse os possíveis riscos e consequências. Então elas vieram, sem avisar: as consequências. Uma organização começou a usar as net-junks para dominar a mente dos usuários e obrigá-los a entregar senhas bancárias. Grupos terroristas tentaram criar, usando web-drogas hipnóticas, um exército de fanáticos suicidas. Houve um caso de um psicopata que, através do neurofone, apagou a memória de dezenas de mulheres e transformou-as em escravas sexuais. De uma hora para outra, pipocaram escândalos similares em todo mundo.

As notícias, naturalmente, provocaram enorme repercussão e a sociedade pareceu despertar para o perigo. O parlamento internacional sancionou leis que regulamentavam a neuro-web. Foram criados diversos instrumentos de repressão. Os resultados logo começaram a aparecer. As principais quadrilhas foram desmanteladas e seus integrantes presos e condenados. Por fim desenvolveu-se um sistema de segurança instalado, por determinação de lei, no próprio neurofone.

A humanidade vivia então um momento de forte conservadorismo, em parte influenciado pelas bruscas mudanças culturais provocadas pelas net-junks - o que ficou patente nas eleições gerais realizadas em 2070, quando os partidos "de direita" obtiveram ampla maioria no congresso mundial. Após intensos debates, realizados sob forte pressão do lobby religioso e dos deputados conservadores, a ONU decidiu proibir o uso das net-junks. A nova lei permitiu o uso para fins médicos ou de pesquisa.

Depois da proibição, o uso das net-junks declinou. Mas não cessou. Com o passar dos anos, surgiram organizações clandestinas que exploravam a venda de net-junks e neurofones no mercado negro, e criavam canais privados onde elas podiam ser usadas longe dos sistemas de vigilância. Surgiram sociedades secretas em torno das principais drogas virtuais. A guerra instaurada entre as autoridades e essas organizações consumiam bilhões de dólares e parecia não ter fim.

Entretanto, as novas tecnologias de controle e segurança, que nunca pararam de avançar, fizeram a sociedade confiar novamente na capacidade de impedir crimes relacionados ao uso do neurofone. Tornou-se possível monitorá-lo roboticamente, porque a transmissão fazia-se pela web, onde toda informação passava pelos filtros de segurança da ONU.

O lobby para legalizá-las havia se re-estruturado, financeira, politica e culturalmente. Surgiu toda uma cultura associada às novas drogas. Escritores, músicos, artistas plásticos, políticos, estudantes, ganhavam prestígio e dinheiro através de obras que citavam, direta ou indiretamente, o potencial revolucionário das net-junks.

Os debates foram se intensificando, na blogosfera e nos parlamentos. O risco das net-junks serem usadas por terroristas ou bandidos foi descartado, devido ao surgimento das novas tecnologias de segurança. Nos anos 80, a humanidade vivia um ciclo liberal, com vitória dos partidos "de esquerda". Em 2084, o parlamento internacional decidiu votar a proposta de liberação das net-junks. Após uma vitória esmagadora, num pleito acompanhado ao vivo no mundo inteiro, as net-junks foram liberadas, com as devidas ressalvas contra alguns softwares.


*

Xang levantou-se e começou a andar de um lado para outro. Anne esperava sua opinião. Depois de ir até a janela e contemplar o centro do Rio, repassando mentalmente as mudanças que vira nas últimas décadas, ele indagou:

- Me diz uma coisa. Por que te mandaram esse relatório?

Ele continuava olhando pela janela. A prefeitura havia construído uma nova linha de metrô áereo, que passava ao lado da catedral metropolitana. Os últimos raios do sol faiscavam sobre o aço dos trilhos. Era uma estrutura bonita, leve, sem uso de concreto armado, feita somente com bioplásticos transparentes e aço sintético.

- Por quê? Ah, vou dizer porque. Esqueci de citar um adendo ao relatório. Os peritos descobriram traços de líquido vaginal na calcinha da moça.

A nova informação fez Xang desviar a vista da paisagem urbana para o rosto jovem de sua parceira.

- Líquido vaginal? Que é isso?

Anne não pôde resistir a um sorriso traquinas, logo seguido de um rubor constrangido. Por um segundo, ela esquecera que falavam de uma pessoa morta, quiçá assassinada. Gaguejou um pouco antes de explicar:

- É o líquido que a mulher... expele... quando fica... humm, exci... quando se prepara para o ato sexual.

Xang caminhou até uma poltrona instalada no canto da sala, sentou-se, apoiou os pés no descanso e fez umas caretas pensativas. Por fim declarou com voz distraída:

- Entendi, acham que foi sexual.

Anne deu de ombros. Xanga perguntou novamente, um pouco irritado com a displicência da moça:

- Héin, Anne, eles disseram que foi sexual?
- Não sei, Xang. Não disseram nada. O SIA classificou o crime como sexual por causa do líquido vaginal, e aí todos os investigadores do setor receberam o relatório.

Xang deu uma risadinha interior, como sempre quando ouvia a sigla. Não entendia porque achava graça. Talvez fosse nervosismo. O SIA - Sistema de Inteligência Artificial - era uma tecnologia recente, mas já considerada a última das últimas invenções humanas. A partir daí, todas as novas descobertas deveriam se realizadas por sistemas robóticos, que possuíam, diziam os especialistas, criatividade superior a qualquer ser humano. O SIA agora operava em todos os órgãos governamentais e só não os dominava completamente porque a constituição ainda protegia os processos decisórios não artificiais. Xang e muitos outros achavam, porém, que o SIA iria, em breve, dar um jeito de reverter a situação. Era uma coisa de louco: o SIA sabia escrever! E publicava, diariamente, artigos e livros em sua própria defesa.

Xang levantou-se e retornou à janela. Essa história de SIA sempre o deixava inquieto. Ainda voltado para a janela, declarou:

- Minha intuição diz que alguém usou o neurofone para matá-la.

Os olhos de Anne cravaram-se no chão. Ela achava que Xang estava ficando obcecado. Pior, estava ficando tendencioso. Havia um cisma ideológico no ar que perturbava a todos. De um lado, os "progressistas", identificados com os defensores da neuro-web, net-junks, SIA. De outro, os que criticavam duramente o deslumbre com as neuro-tecnologias. Xang era identificado, definitivamente, com o último grupo e, apesar de sua moderação, seus comentários eram sempre interpretados sob a ótica de sua ideologia.

No entanto, havia um retrocesso claro, no entender de quase todos: depois que o SIA passou a defender o uso de net-junks, as pessoas ficaram com medo de assumir uma posição independente. O SIA argumentava que as máquinas podiam lidar com o trabalho duro, inclusive as tarefas intelectuais, como cinema, literatura e pesquisa científica. Os primeiros filmes e livros de ficção produzidos inteiramente pelo SIA foram um sucesso estrondoso de público e crítica.

Os homens deveriam se concentrar na busca por uma vida feliz e sábia. A liberação das net-junks, portanto, ligava-se estreitamente à consolidação do SIA. Havia uma excitante perspectiva no ar: a conquista do ócio absoluto. As máquinas poderiam fazer tudo, inclusive arte. O destino do homem era o prazer. Quem discordava dessa visão hedonista do mundo arriscava-se - era o boato que circulava - ser fichado como reacionário e sofrer diversos tipos de perseguição. Como havia a perspectiva de que o SIA iria assumir o poder absoluto dos órgãos públicos, as pessoas temiam emitir posições críticas. Havia uma fé cega na potencialidade civilizatória do SIA. Considerava-se arrogante, simplório, "saudosista", quem subestimava as novas técnicas de inteligência artificial.

Anne permaneceu cética quando Xang deu sua opinião sobre o crime. Os novos sistemas de segurança, instalados após a liberação das net-junks, eram considerados infalíveis. Se o neurofone fora usado para matar uma pessoa, então havia uma falha na vigilância exercida pelo SIA, o que soava como duvidar do resultado de uma calculadora. O grave, neste caso, era o SIA não reconhecer um crime eletrônico como tal. Mesmo cética, contudo, ela percebia que havia um mistério naquele caso. Talvez temesse reagir de outra maneira.

Xang percebeu que Anne não acreditava nele. Dane-se, disse a si mesmo, e apertou o botão do café, com raiva, pensando na maldita robonete.